Quando as palavras não dizem tudo

Há muitos casos em que as palavras não dizem tudo, embora se tente. Nessa época de pandemia do corona vírus, quando muitos perderam parentes e amigos, não foram poucos os que receberam seus mortos em caixões lacrados e sequer puderam fazer um velório e lhes dar um enterro digno. Que palavras fariam efeito numa situação como essa, já difícil demais pela própria perda?
Certo homem havia perdido três filhos, vítimas de acidente. Ele citou os exemplos de palavras de conforto que recebera durante os momentos de sua pior tristeza na vida:
“As pessoas falavam constantemente, dizendo coisas que eu sabia serem verdade. Nada, porém, me tocou. Eu desejava apenas que fossem embora. Outro homem chegou e sentou-se ao meu lado. Ele também perdera um filho recentemente. Não falou nada, não perguntou nada. Apenas sentou-se ao meu lado por mais de uma hora, ouvindo quando eu dizia alguma coisa e dando respostas curtas. Depois fez uma oração simples e foi embora. Fui tocado. Senti-me confortado. Detestei vê-lo ir embora.”

Geralmente, quando encontramos pessoas desoladas ou vivendo sob a carga de algum sofrimento, ocorre-nos a necessidade de preencher seu desconforto com palavras. Talvez pelo receio de que, não lhes dizendo algo, elas virem a piorar; ou pelo simples receio de pensarem pouco de nós. E podem ocorrer situações que nos forcem a evitar uma aproximação, tão somente porque não sabemos mesmo o que dizer. De qualquer modo, mais cedo ou mais tarde, qualquer pessoa pode enfrentar tais situações.
Penso no caso de Jó, cujas perdas pessoais e familiares foram terríveis: perdeu riqueza, prestígio, saúde e todos os filhos. Só lhe sobrou um pouco de dignidade pessoal, que ele guardava consigo, e um simples caco com o qual se coçava.
A esposa, cheia de rancor, lhe deu um conselho absolutamente desesperado: “Amaldiçoa a Deus e morre!”. Podemos até mesmo concordar que ela deveria ter ficado calada. Mas como calar diante de tanta tragédia, principalmente para uma mãe que viu todos os seus filhos partirem e toda a sua vida virar de ponta-cabeça?! Esse caso era, definitivamente, o de alguém que não sabia o que dizer, mas disse tudo o que seu coração vazava.

Depois vieram os amigos para consolar o desventurado Jó. Disseram tudo o que quiseram, tudo o que achavam que podiam: ministraram lições de teologia, conversaram sobre noções de justiça e direito, defenderam Deus; mas, sobretudo, acusaram Jó de estar sofrendo o que merecia; e tinham certeza de que isso era uma clara punição decorrente de seus pecados. Esse era o caso de pessoas que diziam tudo o que sabiam e acabaram não sabendo o que dizer.

Em sua tristeza, Jó almejava pelo apoio silencioso dos amigos. Ele até clamou: “Oxalá vos calásseis de todo, que isso seria a vossa sabedoria” (Jó 13.5). Mas tudo o que eles falavam tinha o condão de desanimá-lo cada vez mais. Era o “empurrãozinho” de que precisava o sofrimento para ser completo e avassalador.
Ainda hoje, há muitos “amigos de Jó” de plantão. Se acontece alguma tragédia com alguém, logo arriscam veredictos de supostos pecados, como se fossem verdades proféticas. E o resultado de palavras insensatas e cheias de juízo é sempre negativo e dolorosamente constrangedor.

Porém, na maioria das vezes, tudo o que a pessoa sofredora precisa é de uma presença amiga que não julgue, de um ombro amigo que deixe chorar, de atitudes que falem mais do que palavras. Quando você não souber o que dizer, apenas ore. Não diga tudo o que sabe, porque quem diz tudo o que sabe, acabará dizendo o que não sabe; ou então, quando for mais preciso, não saberá o que dizer.
Todavia, eu gostaria de dar um conselho aos que não puderam enterrar seus mortos dignamente. A morte é o fechamento de um ciclo, por isso a necessidade de um velório. Portanto, quando todo esse isolamento acabar, reúna sua família e, em vez de um velório triste tradicional, faça uma cerimônia de despedida com todas as alegrias legítimas com as quais a família sabe que a pessoa que partiu gostaria de ser lembrada. E que cada pessoa fale o que achar melhor, bote para fora as melhores palavras que encontrar.
E depois, façam uma oração de despedida com um “até breve”, pois um dia também partiremos. Louvem a Deus por tudo e recebam Sua consolação em seus corações! Amém!

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém
E-mail: samuelcamara@boasnovas.tv

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