O poder restaurador do perdão

O professor pediu aos seus alunos que levassem batatas e uma bolsa de plástico para a sala de aula. Durante a aula ele pediu para que separassem uma batata para cada pessoa de quem sentiam mágoas, escrevessem os seus nomes nas batatas e as colocassem dentro da bolsa. Algumas das bolsas ficaram muito pesadas. A tarefa consistia em, durante uma semana, levar a todos os lados a bolsa com as batatas. Naturalmente, a condição das batatas foi se deteriorando com o tempo. O incômodo de carregar a bolsa com batatas apodrecidas, a

cada momento, mostrava-lhes o tamanho do peso espiritual diário que a mágoa ocasiona, bem como o fato de que, ao colocar a atenção na bolsa, para não a esquecer em nenhum lugar, os alunos deixavam de prestar atenção em outras coisas que eram importantes para eles.

Esta é uma grande metáfora do preço que se paga por não perdoar. Isso me leva à lembrança de um fato ocorrido durante a guerra do Vietnã, especialmente de uma foto em particular que foi publicada em quase todos os jornais do mundo. Ela retratava uma garotinha fugindo aterrorizada de sua aldeia, juntamente com outros meninos, esperando escapar ao horror do Napalm que queimava sua pele. Ao fundo, um manto de fumaça e destruição. Seu nome é Kim Phuc. Nela ficaram as horríveis e indeléveis cicatrizes em quase todo o corpo, como marcas do horror e da intolerância.

Todavia, em 1996, Kim Phuc foi convidada a dar uma palestra em Washington, no Memorial dos Veteranos do Vietnã. Durante a palestra, ela disse que perdoaria o piloto que lhe infligiu tamanho dano, se um dia eles se encontrassem. O homem a quem ela se referia era John Plummer. Ele havia declarado estar certo de não haver civis morando na aldeia, por isso ordenara o ataque. Mas isso não fazia a menor diferença: sua culpa continuava latente e ele precisava se sentir perdoado.

O auditório estava lotado e, “jesuscidentemente”, John Plummer estava na platéia. Ele soube que Kim estaria lá, então foi para ouvi-la falar. Após a cerimônia, os dois se encontraram, face a face, olhos nos olhos. Dois personagens antagônicos: ele é um americano que, no auge da guerra, quase a matou; ela é uma vietnamita que, quando o Napalm começou a cair do avião dele, correu para salvar a vida.

Naquele momento, tudo o que John Plummer sabia dizer era: “Perdoe-me, eu sinto muito”. Constrangido, ele repetia a mesma frase. Kim Phuc o fitou por alguns momentos e respondeu: “Tudo bem, eu perdôo você”.

Como ela poderia perdoar o responsável por tamanho terror em sua vida? A resposta é que Kim tornara-se uma seguidora de Jesus Cristo após a guerra, assim também como John. Eles entendiam o perdão – como dá-lo e como recebê-lo. Eles foram perdoados por Jesus e permitiram que o ciclo do perdão continuasse.

Kim Phuc era uma mulher que conhecia os princípios da fé cristã. Ela poderia, como muitos, ter ficado ressentida com sua circunstância e odiado seu ofensor. Poderia ter desenvolvido um espírito amargo e vingativo. Poderia estar carregando suas batatas, ou a raiva inflamada desse incidente cruel que marcara sua vida para sempre. Mas ela estava seguindo as ordens de Jesus: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44); e também: “Não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lc 6.37). Ela sabia que fora totalmente perdoada: “Ao Senhor, nosso Deus, pertence a misericórdia e o perdão” (Dn 9.9). Ela podia orar o “Pai Nosso”: “Perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo o que nos deve” (Lc 11.4). Assim, Kim Phuc perdoou o seu antigo algoz John Plummer e ministrou perdão ao seu coração carregado de culpa.

Num mundo onde a retaliação é comum – “olho por olho, dente por dente” – os crentes em Jesus não somente são perdoados, mas também são chamados para perdoarem. Os princípios de Jesus são extremamente desafiadores, e isso não é fácil para ninguém.

Mas com a ajuda do Espírito Santo, que habita em nós, podemos escolher ter um espírito de perdão, seguindo o conselho bíblico: “Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós” (Cl 3.13).

Assim, deixe de carregar suas batatas ou mágoas, apenas perdoe e viva!

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém

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